Os botos

Desde a Grécia Antiga a crença de que golfinhos são elo entre a espécie humana e o mundo espiritual é comum. Ao longo dos tempos, golfinhos ou botos sempre têm estado metaforicamente próximos à espécie humana, exercendo grande fascínio e servindo de inspiração em rituais, mitos e lendas. Até nos dias atuais, podemos verificar que a ideia de um golfinho como um amigo e salvador de náufragos é universal.

 

Na antiguidade, muitas culturas impunham a pena de morte a qualquer um que matasse um golfinho. Porém, os dias atuais mostram uma relação ambígua entre homens e estes animais. Existem registros de interações mutualísticas positivas entre golfinhos e comunidades pesqueiras em diferentes partes do mundo, assim como muitos conflitos, colisões, caça, captura incidental ou propositada em redes e artefatos de pesca.

 

 

O aparente altruísmo no comportamento dos golfinhos em relação aos seres humanos tem influenciado profundamente nossas atitudes para com eles. Em todo o mundo existem mitos e relatos, efetivamente verificados, em que golfinhos resgatam nadadores ou guiam barcos através de águas traiçoeiras.

 

Nesse sentido, a literatura de outras partes do mundo confirma a ideia de um golfinho amigo e salvador de náufragos é recorrente. Em partes do Mediterrâneo e ao longo da costa do Brasil, ainda existem parcerias entre pescadores e golfinhos, que localizam cardumes e podem até empurrá-los para as redes dos pescadores.

 

A crença de que golfinhos estão ligados à espécie humana por alguma forma de parentesco espiritual é comum em muitas culturas, desde os antigos Gregos aos aborígenes do norte da Austrália. Alguns árabes acreditavam que os golfinhos acompanhavam as almas dos mortos em suas jornadas pelo mundo espiritual. Para muitos nativos americanos os golfinhos eram os mensageiros entre o mundo real e o mundo espiritual, tornando-se a personificação do “Grande Espírito”. O papel desses animais como mediadores espirituais também foi adaptado pelos primeiros cristãos, para quem um golfinho fincado num tridente ou pendurado numa cruz, era um símbolo secreto relacionado a Jesus Cristo.

 

Na América do Sul, os botos da Amazônia são considerados sagrados e não devem ser mortos. Os ribeirinhos e alguns grupos indígenas dizem que ele é muito querido pelas jovens garotas e se disfarçam em humanos no carnaval com a intenção de seduzi-las. Determinadas etnias acreditam que os botos, um wái mahsá, peixes dos quais eles creem que descenderam, às vezes se transformam em homem ou mulher para atrair jovens do sexo oposto. Também acreditam que eles preveem o futuro, a doença ou o nascimento de uma criança. Alguns índios acreditam que o boto transforma-se numa linda sereia que canta ou lança feitiços para fazer os botes naufragarem. Acreditam também que seus olhos são valiosos talismãs de amor. De forma parecida, os pescadores caiçaras da Barra do Superagui, litoral norte do Estado do Paraná, acreditam que olhar através do olho esquerdo do boto (Sotalia guianenis) traz sorte no amor.

 

Em Cananeia, a conexão homem/boto é marcada por interações benéficas para ambos, o que acaba por gerar uma visão positiva em relação aos botos, evidenciando o importante papel do caiçara local na conservação da espécie e dos ecossistemas locais, uma vez que os mesmos são profundos conhecedores de aspectos da bioecologia dos animais e do funcionamento sazonal do sistema estuarino lagunar local.

 

 

As comunidades caiçaras têm uma visão bastante positiva sobre os botos, elegendo-o como um dos animais símbolo da região, ou seja, aquele que imediatamente é associado ao ritmo de vida e ao cotidiano local, não só pela própria comunidade, mas também por turistas e veranistas sazonais.